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Morumbi: Um Estádio com muita História pra Contar
José Wolf
 

A festa da Copa da África do Sul acabou. E, agora, José? Agora, já começaram a pipocar, em meio a muita polêmica e dissonâncias, as discussões sobre a próxima Copa, no Brasil, em 2014, envolvendo, inclusive, escritórios de Arquitetura que deverão projetar ou reciclar estádios, para 12 cidades do país, que foram escaladas para sediar jogos da próxima Copa. Projetos - lamenta o IAB nacional, num manifesto - que não foram objeto de um concurso público de Arquitetura, como se desejaria.

Fora da lista - Junho, 2010: em plena Copa de Futebol, na África do Sul, chega a notícia que abalou arquitetos, como a equipe do competente escritório Ruy Ohtake, escalado a princípio para reformar o estádio do Morumbi para a Copa de 2014, no Brasil, além de torcedores paulistanos e frequentadores de botequins da região central de São Paulo.
(ou seja) por decisão do staff burocrático da Fifa, o histórico estádio do Morumbi, em São Paulo, não seria mais sede da abertura da Copa, em 2014, cuja organização já revela problemas de sintonia e atraso de pelo menos seis meses no cronograma de obras, conforme alerta a mídia. Resta saber por quê?

Cartão vermelho - Ao contrário do texto “Arquitetura e futebol: um jogo limpo”, publicado no Boletim 65 do IAB/SP, haveria atrás dessa decisão fatores e interesses políticos, regionais, pessoais e financeiros, que extrapolam a questão arquitetônica. Até o presidente Lula, por sinal, se manifestou surpreso com a decisão da Federação Internacional de Futebol!

Paixão nacional - Futebol? De acordo com os consagrados cronistas Nelson Rodrigues e João Saldanha, significa “arte e paixão popular” de uma população carente que vive na periferia. Onde, além de uma igreja ou capela, há sempre um campinho de futebol, de terra batida, conforme registrei na pesquisa “Cinema e futebol: uma história em dois campos”, menção honrosa de um concurso promovido pela antiga Embrafilme, nos anos 80.. Periferia ou subúrbio, vítimas, atualmente, da violência e das drogas, segundo alerta o grupo rap Racionais, em “sobrevivendo no Inferno”ou no clássico “Periferia é perferia em qualquer lugar”.

No banco dos reservas - Um tema ou programa pouco explorado pelos profissionais de Arquitetura. Muitos dos quais permanecem no banco de reservas por ignorância do Poder Público, da mídia especializada, da iniciativa privada e das próprias comunidades, que continuam apostando suas fichas no Carnaval ou no futebol, esquecendo-se da Arquitetura. Que lhes poderia proporcionar maior qualidade de vida habitacional, urbana e humana.

Morumbi? Segundo o site Yahoo, a palavra vem do tupi-guarani e significa “morro ou colina verde”. Considerado um dos estádios particulares maiores do mundo, construído, nos anos 50, num antigo matagal, no bairro do mesmo nome que acabou se transformando num oásis imobiliário com a construção de mansões de alto padrão, mesmo convivendo com favelas, foi inaugurado no dia 2 de outubro de 1960, alguns meses depois da instalação da nova capital Brasília, que mudou, na visão de Abrahão Sonovicz, a escala da produção arquitetônica do país.

Show de bola etc.. Conforme informa o clássico “Arquitetura Moderna Paulistana”, de Alberto Xavier, Carlos Lemos e Eduardo Corona, a construção do estádio, projetado pelo mestre Vilanova Artigas e seu parceiro Carlos Cascaldi, em 1952, resultou de um concurso privado de Arquitetura.

Situado numa área de 154 mil m2, tem capacidade para abrigar mais de 100 mil torcedores. Que, por meio de rampas, próximas às vias laterais, antes que se falasse em acessibilidade, possibilitam rápido escoamento do público. Em contrapartida, os sanitários e estacionamentos são lamentáveis. A mobilidade urbana? Nem pensar.

Apesar disso, não podemos nos esquecer que esse “gigante de concreto armado”, além de sediar jogos marcantes de campeonatos nacionais e paulistas, da Copa América e da Libertadores, foi palco de outros eventos musicais e religiosos.

A exemplo do inesquecível “sermão do Morumbi”, em 1980, quando o papa João Paulo II, no finalzinho da ditadura militar, em meio ao grito da multidão “João, João, você é o nosso irmão”, erguendo os braços alongados, proclamou: “Trabalhadores, excluídos, vocês São Paulo”!.

Além disso, abrigou shows musicais inesquecíveis, como o da irreverente Madonna, do enigmático Michael Jackson, com seu thriller, que revolucionou a linguagem dos clips publicitários. Ou do Guns in´Roses (live & dangerous), do mágico Renato Russo (quatro estações), da Legião Urbana, e do roqueiro Bob Dylan, com seu eterno “for ever young”, além do grupo Metalica (welcome home). O Morumbi, inclusive, foi agendado para abrigar um show dos Beatles, que acabou não acontecendo devido à morte de John Lennon.

Craques do traço - O projeto Morumbi, enfim, na avaliação dos autores do “Arquitetura moderna pauilistana”, “veio propiciar aos arquitetos, graças à sua inusitada escala e emprego maciço do concreto armado, a oportunidade de expressarem sua linguagenm (revolucionária e renovadora), até então condicionada a construções de pequeno porte”.

Assim, devemos à competência e traço de muitos arquitetos, a elaboração de estádios e de outros complexos esportivos, a exemplo do Centro de Lazer, em Itaquera, São Paulo, do arq. Ícaro de Castro Mello. Outros exemplos? O Serra Dourada, GO, projeto de Paulo MendesDiógenes Rebouças, o Pinheirão, em Curitib>ba, PR, projeto assinado por Joel Ramalho, o Mineirão, Belo Horizonte, MG, projeto de Eduardo Mendes e Gaspar Garreto ou o Castelão, em Fortaleza, CE, elaborado por uma equipe encabeçada pelo arq. Liberal de Castro.

Jogo aberto - A maquete da reforma do estádio descartada pela Fifa, por sinal, foi objeto de exposição e discussão durante a 8a Bienal de Arquitetura Internacional de São Paulo, em 2009, sob o tema “Ecos urbanos” realizada na primeira gestão heróica do IAB/SP da arq. Rosana Ferrari.

Na súmula – À maneira da súmula elaborada pelo juíz de uma partida de futebol, na condição de repórter, teria a observar:
1) A lamentar: com certeza, os senhores da Fifa desconhecem todo esse background de um passado, e de uma história, que não podem ficar na reserva.
2) A elogiar: a observação do crítico Guilherme Wisnik, no blog ENTRE, da Puc do Rio, ao comentar:”A Copa do Mundo de futebol e as Olimpíadas são fatos gigantescamente importantes...(mas) ao que parece, as decisões sobre o que será feito com todo o investimento estão acontecendo de maneira não pública, por debaixo dos panos...” Ou seja: sem transparência.
3) A destacar: de qualquer forma – enfatiza – “é uma chance histórica que está sendo posta nas mãos do Brasil...” que se transformou sob o olhar do mundo a “bola da vez”. Resta-nos torcer para que não seja uma bola murcha.

Escanteio polêmico - O veto, sem dúvida, confirma a advertência feita por muitos palestrantes durante o 19º Congresso Brasileiro de Arquitetos, em Recife, sobre os novos desafios da Arquitetura frente à globalização. Globalização, que apostando numa arquitetura marquetizada, de grife ou num futuro sem identidade e DNA , vem colocando de escanteio o passado e a história.

Com base em tudo isso, emerge a questão: como reverter esse jogo?

Na linha do pênalti - Pra começar, mudando as regras do jogo. Ou seja: com uma midia especializada que abra espaços para uma seleção ou geração de arquitetos anônimos do Interior. E com administrações políticas e iniciativas privadas mais sensíveis à contribuição da Arquitetura na qualificação dos espaços públicos.
Além disso, como vem torcendo Rosana Ferrari desde seu primeiro mandado, depois da morte trágica do saudoso Joaquim Guedes, reforçando o IAB, com portas abertas para o diálogo entre arquitetos do Interior e da Capital, apostando numa “Arquitetura para todos”! Portanto, de inclusão, de catraca livre, para todas as torcidas e opiniões.
Com certeza, pela sua longa experiência e luta, o IAB pode até perder um jogo, mas jamais o placar, mesmo que a vitória seja por uma goleada de 1 a 0! Seja qual for o resultado, o IAB não merece ficar na Segunda Divisão ou no banco...

José Wolf

3/8/2010
 
   
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