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Arquitetura e reHUrbManismo
 
Quando comecei, a idéia do Abrigo/Manifesto tinha dois pontos de mesma e especial importância; o primeiro era humanitário, de intolerância (sim, temos de ser intolerantes também) a esta fabricação social de seres invisíveis, onde homens, mulheres e crianças são tratados como sacos ou entulhos espalhados nas ruas.

O segundo ponto foi reconhecer o quão desconhecido era o arquiteto e seu real papel para a sociedade a qual ele se apresenta, sendo confundido como um fútil maquiador da paisagem, caricato até nas novelas.

Estaríamos condenados a buscar o respeito e uma remuneração justa paralela à honesta arquitetura, já que podaram nossa liberdade de criação e transfiguraram nossa imagem a ponto de grife de um stand de vendas? Desaparecemos das nossas cidades?

Comecei a entender uma cidade pela sua situação geográfica, ocupação física (construções) e humana. A ocupação física (construções) e a humana decorrem, ou deveriam, da mescla igualitária entre público (comum) e privado (particular), mas o que acontece é diferente.

Devido ao nosso “grande e salvador” sistema do capital/lucro, o espaço público/comum se configurou pelo negativo do espaço privado/particular; a sobra, o resto. Esta configuração decorre de anos de empobrecimento comum, e que quanto mais tempo o homem vivencia inconscientemente uma situação, acaba por transforma-la em realidade sem que a consciência filtre, atrofiando assim, a sua percepção; aceitando este espaço público como espaço transitório entre seus interesses.

Uma vez que a percepção se atrofia, os sentidos se amortecem, o indivíduo desaparece e é comprado pela verdade do outro; o status é o que importa e é o preço de que o objeto ou pessoa vale.

Neste ponto, a relação está destorcida e começamos a ver tudo pelo olho particular da ação privada. O transporte público não funciona, nós compramos carros particulares; a saúde pública não funciona, nós pagamos pelo convênio médico particular; a segurança não funciona, nós pagamos por segurança privada ou nos fechamos em condomínios privados; e se resolvemos passear pela cidade, nos deparamos com praças e parque cercados e nenhuma infra-estrutura básica, como sanitários públicos gratuitos, nos levando a mais uma vez apelar para um estabelecimento privado. Sem um aparente “dono”, (mais uma vez uma visão privada), o espaço comum é loteado inconscientemente pela população no raio próximo às suas propriedades, e se incomodam com a presença de um morador de rua, não por se tratar de um ser humano em uma condição especial, mas por atrapalharem a ordem dentro do seu raio privado. Mas se este mesmo ser humano, transformado pela sujeira urbana se parecer com seus sacos de lixo, subitamente se tornará invisível, por consequência, não mais um problema.

Esta invisibilidade para alguns desencadeia uma anulação do indivíduo e o fim da auto-estima, levando a uma entrega a substancias anestesiantes; para outros a raiva, uma vez que não existem, podem tudo; começa a violência.

Consciente do fenômeno da raiva, a propriedade se cerca e fecha, abandonando o espaço comum, o transformando em resto, o seu negativo...
...parece que retornamos ao ponto de partida. Girando a roda?
Não estou fundando nenhuma ONG (Organização Não Governamental), apenas re-apresentando o papel do arquiteto, ou pelo menos ao meu ver, como deveria ser, para que voltemos a interferir no espaço comum e que não nos limitemos a uma ou outra ação; sem rótulos. E que a ação vem da vontade e não da remuneração.

É claro que o arquiteto sozinho não transformará o status quo, não sou ingênuo, mas o abandono daquilo que nos é de responsabilidade, não fará a roda parar de girar.

Re-humanizemos a cidade ou re-urbanizemo-nos; isto é o Abrigo/Manifesto, isto é o re-HUrbManismo.

autor: arquiteto Adriano Carnevale Domingues

Para maiores informações sobre o manifesto, acesse:
adrianocarnevaledomingues.blogspot.com
3/4/2009
 
   
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