A ABAP – Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas não poderia deixar de se manifestar neste momento para denunciar mais esta agressão à cidade de São Paulo : o Projeto de Ampliação da Marginal do Tietê.
Inicialmente é importante considerar o fato de estarmos assistindo em todo o mundo a projetos de requalificação urbana que buscam a valorização e o posicionamento das grandes metrópoles em escala global.
No bojo desses projetos, as áreas junto aos seus rios tem assumido um papel preponderante para a identidade urbana de seus espaços públicos, atendendo às demandas contemporâneas de melhoria das condições de qualidade ambiental e paisagística.
O projeto de construção de mais pistas, ocupando os já exíguos espaços remanescentes junto ao rio Tietê, representa, neste momento, uma posição anacrônica em relação aos projetos urbanísticos e processos de gestão urbanos mais avançados do mundo. Significa a mera continuidade de políticas urbanas já ultrapassadas, que subordinam a paisagem urbana a uma suposta funcionalidade, exercendo a função de mero suporte para a circulação de veículos e suas engenharias.
São Paulo poderia ser uma cidade com características paisagísticas muito peculiares. A sua implantação original respondia realmente aos aspectos topológicos singulares do seu sítio de “mar de morros”, singrado pelas linhas d’água, induzindo a um desenho urbano de “clusters” separados por áreas verdes.
No entanto, a cidade foi se desenvolvendo, ocupando esse sítio, sem levar em consideração esses aspectos, canalizando os córregos e promovendo a impermeabilização das suas várzeas, com os decorrentes impactos de degradação paisagística e ambiental que hoje são presentes.
Na década de 60 do século passado, a urbanização já havia transposto os rios Pinheiros e o Tietê, deixando, no entanto, as suas várzeas livres para a absorção das águas das cheias periódicas e as induzindo claramente a receberem o que certamente teria sido o maior parque linear fluvial urbano do mundo: 50 km de extensão, desde Santo Amaro até os limites leste da cidade. Aliás esta recomendação já havia sido feita na década de 20, pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito.
Desde o plano de Prestes Maia, que sucedeu ao de Saturnino de Brito, pensava-se o transporte sobre trilhos conjugado às pistas nas marginais. Ele aconteceu de forma parcial e fez-se o asfalto, somente. Assim, segue a história prática de nosso urbanismo paulistano: impermeabilizando, transformando potencialidades paisagísticas em meros e mesquinhos retalhos, onde se plantam exemplares arbóreos, enterrando memórias de nossa paisagem urbana.
Nos idos dos anos 60, na gestão do Prefeito Faria Lima, deu-se a implantação das Marginais do Rio Pinheiros. Esta ação, que visava claramente a valorização imobiliária daquelas terras, até então sem valor algum, representou a continuidade do nefasto modelo tradicional, que subjugou as várzeas às necessidades da circulação veicular.
O modelo tradicional, implantado de forma restrita durante décadas, tão somente considerou os aspectos de engenharia de tráfego e hidráulica, canalizando o rio e implantando as pistas carroçáveis adjacentes ao canal, ocupando os terrenos de várzea, baseando-se em dados técnicos que foram, pouco a pouco, tornando-se obsoletos, como decorrência da própria implantação, pela paradoxal indução da ocupação urbana e impermeabilização do solo e ainda pela demanda de mais vias para circulação.
O mais importante, segundo esse modelo, é sempre construir mais vias, não importa que a paisagem seja descaracterizada ou em que espaço desumano isso resulte. Este é o tipo de lógica que mata qualquer vida urbana, e que vem envenenando a nossa identidade por décadas.
Certamente poderíamos prever outros projetos que enfrentassem os desafios que esta fórmula convencional não consegue resolver.
Poderíamos começar pela simples pergunta: é possível reintegrar o nosso rio, o Tietê, à cidade?
No entanto, isso demanda uma profunda mudança de mentalidade, e a esperança (não desistamos!) de uma cidade funcional e bonita para todos, que concilie os imperativos do desenvolvimento econômico com a paisagem urbana que seus habitantes, sem dúvida, merecem.
Saide Kahtouni
Presidente da ABAP |