Marcelo Koch
Vou tratar do substantivo arquitetura, com "a" minúsculo, da freqüência e lugares em que aparece. Arquitetura com "A" maiúsculo já é tema de meus colegas colunistas, embora sua relação com o tema mercado, alvo de minha coluna, vá aparecer futuramente.
A visão da palavra arquitetura está bastante ausente do cotidiano dos cidadãos comuns. E quem não é visto não é lembrado. Sempre que você for a uma cidade, visite a prefeitura.
Pergunte pelo setor de arquitetura. "Quê? como disse?" Dificilmente vai achá-lo. Achará setor de engenharia, divisão de engenharia, departamento de engenharia, etc. E o que fazem lá? Analisam projetos arquitetônicos.
Quem analisa? Engenheiros e, com sorte, arquitetos. Faça o mesmo nos outros órgãos públicos e companhias estatais. No máximo, encontrará um estrato burocrático qualquer seguido das palavras engenharia, obras ou projetos. Bem , "obras" e "projetos" são palavras neutras, isso ainda passa.
De quem é a culpa? Existem diversas razões históricas e sociológicas. Mas ficar buscando a culpa nos outros não tem produzido bons resultados. Também existe a nossa, colegas.
Freqüentemente esses setores são chefiados por arquitetos. Quem sabe eles solicitam aos seus superiores a mudança do nome, onde apareça a palavra arquitetura? Setor de Arquitetura e Engenharia, Divisão de Obras, Arquitetura e Engenharia, Departamento de Projetos. Parece pouca coisa, mas não é. É uma das maneiras de acostumar os cidadãos com o nome da profissão. Eles vão perceber que onde tem obras e projetos tem geração de riqueza. E tem arquitetura. E que antes de existir uma obra, deve existir um projeto arquitetônico. Que arquitetônico é coisa muito séria, tanto que é o único projeto que sempre é exigido nos órgãos públicos. E quem não contratar um arquiteto e fizer uma obra irregular, corre o risco de ler o nome arquitetura no veículo da prefeitura, no crachá do fiscal, na notificação, na guia da multa, na porta do órgão fiscalizador e quando tiver que pagar para um arquiteto regularizar a obra, vai ver no cartão, no contrato, no selo das pranchas, na ART e na placa. Finalmente, vai entrar na cabeça do cidadão pra que serve o arquiteto. Por vias tortas, bem que se diga, mas entra. E não sai nunca mais. Da cabeça dele e de um monte de vizinhos, que estarão assistindo ao fiscal chegar. Os filhos do cidadão vão aprender que é viável pagar a um arquiteto antes de tudo, para não darem vexame na frente dos outros. Vão lembrar-se daquela parede que os pedreiros derrubaram e perceber que apagar com a borracha custa menos do que derrubar com a marreta.
Vão saber que muitos serviços de arquitetura são até mais baratos que o celular cheio de bobagens que eles não sabem usar. Vão ver que a consulta de um arquiteto é mais barata que o tênis importado, mofado num quarto onde não entra sol. Os parentes vão ficar admirados com as "dicas" do arquiteto: para irem ao banheiro, não passarão pelo chuvisqueiro! Foi só mexer numa paredinha! E aquela escada onde a titia fraturou a "bacia"? a superfície era escorregadia. Ah, o arquiteto botou piso antiderrapante. .. Talvez precisem de um financiamento para reformar. Vão ver a palavra arquitetura na documentação exigida, nos memoriais, no cronograma, no contrato e, tendo-se sorte, o fiscal do agente financiador será arquiteto e usará crachá com o nome Setor de Arquitetura! E melhor, agora que tem obra, virão o CREA e a prefeitura novamente! E dê-lhe arquitetura escrita em tudo.
Outra curiosidade são os concursos públicos.
São raros os concursos para arquitetos. Porém é comum encontrar-se editais onde a descrição da atividade profissional requerida encaixa-se com perfeição nas atribuições de arquiteto, mas não tem vaga para arquiteto.
Alguns órgãos e empresas públicos sequer têm o cargo de arquiteto em seu quadro funcional. Quanto aos salários, melhor nem comentar. Alguns órgãos tem a coragem de remunerar um profissional concursado em menos de R$ 1.000,00. Mas gastam fortunas fazendo uma nova "programação visual" toda vez que troca-se de gestão. Não tem nenhum plano de manutenção e jogam dinheiro pelo ralo em intermináveis reformas, parceladas para escaparem das licitações. Esses dias alguém comentou que, procurando vagas em sites de emprego na Internet, não encontrou nas palavras-chaves o termo arquiteto, tampouco arquitetura. Nesse meio internáutico, tido como culto e diferenciado, isso revela um sinal gritante da ignorância sobre arquitetura. Mostra, também, a omissão que temos em fazer a nossa parte: protestar, telefonar, mandar mensagens.
Insistentemente, incomodar mesmo.
E os cursos ? Jornal do CREA, julho: curso de Engenharia de Segurança do Trabalho. Que tal Arquitetura e Engenharia na Segurança do Trabalho? Outro: Especialização em Engenharia Clínica. Por que não Especialização em Arquitetura e Engenharia Clínica? Notícia na página 4: "Confea defende competência dos engenheiros especialistas em segurança do trabalho". E os arquitetos especialistas nessa área, não precisam ser defendidos? Mais uma, na página 5: Ibape - Instituto de Perícias e Engenharia de Avaliações. Por que razão "engenharia de avaliações" se arquitetos podem atuar na área, assim como geógrafos? Quem sabe apenas Instituto de Perícias e Avaliações? Abrangeria todas as profissões do Sistema aptas a fazerem avaliações. Mudar o nome vai ferir tanto assim?
A exposição na mídia também abre uma importante fronteira a ser explorada. A maciça maioria dos brasileiros não lê livros. Aprende as coisas pela tv. Acreditam mais numa novela do que num professor universitário. Nesse contexto, torna-se muito importante divulgar o ofício do arquiteto no meio televisivo.
A Rede Globo tem uma novela onde um dos atores vive o papel de arquiteto. Passa o dia inteiro na praia jogando vôlei, sempre bronzeado, tem um padrão de vida invejável, mora num belo apartamento, viaja ao exterior e anda sempre de cuca fresca. Em que pese tal modelo estar bem distante do quotidiano dos arquitetos mortais, poderia ter sido usado para ensinar nosso povo a importância da nossa profissão. Num dos capítulos, falou de um evento que o IAB-RJ estava realizando e a receptividade foi muito boa. Imaginem a produção sendo assessorada pelo IAB para que a personagem tivesse mais consistência! Apareceria, por exemplo, orientando os clientes na escolha do terreno. A população iria perceber que arquiteto não cuida somente de aspectos estéticos e que pagando uma consulta para o arquiteto dar um parecer sobre o terreno, torna-se possível livrar-se de grandes arrependimentos futuros. E se ele demonstrasse que fica muito mais simples e barato apagar uma parede com a borracha do que demoli-la com a marreta? Muita gente compreenderia, de forma indelével, a importância de contratar um projeto antes da obra e dar tempo para que as soluções sejam amadurecidas, antes de sair comprando tijolos. E se ele aparecesse em obra, projeto em punho, evitando que fossem utilizados materiais em desacordo com as especificações? Certamente o povo compreenderia que o projeto trata-se de uma grande arma contra a picaretagem, protegendo o bolso do contratante. Acabaria de uma vez por todas com esse preconceito de que arquiteto só faz coisas fúteis e caras.
O plantio nas mentes das novas gerações: outro campo inexplorado. Os jovens que cursam o primário sabem o que faz um arquiteto? Uma palestra rápida, com muitas imagens, geraria futuros clientes em potencial... Quem sabe as disciplinas de história sendo enriquecidas por visitação orientada aos prédios tombados e que foram transformados em espaços vivos das nossas cidades? Seria uma aula de cidadania, de fé no inestimável papel da cultura para o avanço da sociedade e mostraria o incansável trabalho dos arquitetos para salvar nossa memória histórica. Quem sabe as escolas municipais ensinando geometria na prática, fazendo maquetas de espaços importantes da cidade, com orientação de um arquiteto? Coisas a serem propostas paras as secretarias de educação...
Temos que atuar junto aos meios de comunicação, promovendo a nossa profissão e corrigindo-os toda vez que cometem um equivoco ou omissão. Impugnar concursos judicialmente. Informar empresas e órgãos públicos sobre a legislação que rege as profissões. Denunciar publicamente salários escorchantes e pressionar as autoridades para economizarem dinheiro público onde cabe, e não rebaixando vencimentos. Hora de colocar a participação do arquiteto em absolutamente tudo que for possível.
Quem não for visto não será lembrado...
fonte: publicado em 19/OUT/2003 no Info IAB-RS |