rede de acervos de arquitetura e urbanismo

são paulo, 17 de setembro de 2020

é necessária a construção imediata de uma política de incentivo e valorização de acervos de arquitetura e urbanismo no país. tais acervos são essenciais à investigação em fontes primárias, procedimento metodológico imprescindível para o desenvolvimento de leituras sobre a história da arquitetura brasileira. essa carência ganha contornos de urgência tendo em vista a situação crítica que vigora no país em relação às políticas culturais, sob ataque constante e com estrangulamento de verbas. dentro desse contexto, a saída do país do acervo profissional do arquiteto paulo mendes da rocha aparece como agravante, que reforça a urgência de uma articulação institucional ampla.

acervos de arquitetura são testemunhos de ideias e de práticas de trabalho que constituem importantes documentos para os estudos da arquitetura, da cidade, das artes, das técnicas, das profissões e de suas relações com a sociedade. representam um patrimônio cultural que precisa ser preservado, estudado e divulgado. são compostos por documentos de variados suportes, cujas especificidades exigem tratamentos distintos de salvaguarda, organização, catalogação e conservação de modo a permitir ampla difusão entre pesquisadores e interessados. organizados em arquivos criteriosos, as coleções de arquitetura e urbanismo servem tanto à pesquisa quanto à difusão da cultura técnica, artística e social brasileira.

apesar da excelência reconhecida internacionalmente de alguns centros, há no brasil muitos arquivos dispersos e em situações díspares – na administração pública, nas universidades, em entidades culturais e em escritórios particulares. o que pode parecer um problema na realidade é uma potência. no entanto, a atual crise que atinge as instituições brasileiras tem agravado os obstáculos para que ela se efetive.

ciente da importância da preservação e divulgação desses acervos para a cultura arquitetônica brasileira, o iabsp, desde dezembro de 2018, vem dialogando com um conjunto de organizações e especialistas no tema para criar as condições necessárias para estabelecer uma rede de acervos de arquitetura e urbanismo no brasil. uma ação conjunta de instituições públicas e privadas detentoras de acervos de arquitetura com objetivo de compartilhar políticas de acervos sempre guiando-se por preceitos éticos e normativos de conservação, organização e acesso público à informação.

uma rede de acervos de arquitetura e urbanismo que se propõe a compartilhar conhecimento, incentivar novas pesquisas e novas leituras, discutir a incorporação de novos acervos e contribuir para a melhoria das técnicas de preservação. assim, será possível orientar projetos futuros, ampliar o repertório de ações possíveis, bem como garantir o acesso à informação pública, extrovertida por meio da montagem de exposições, publicações, além de seminários sobre o tema. a construção de uma infraestrutura comum, por meio de uma plataforma digital, também é uma missão desejável para conexão das informações dispostas em rede. para tanto, será necessário buscar convergências entre estratégias para o financiamento dessas iniciativas.

diante da proximidade do centenário do instituto dos arquitetos do brasil, o departamento são paulo (iabsp) tem desenvolvido ações em relação ao seu próprio acervo: organizando, catalogando e disponibilizando documentos,[1] (https://www.iabsp.org.br/acervo-iab), além de promover o debate técnico a partir de eventos acadêmicos e profissionais a exemplo do seminário acervos de arquitetura[2] realizado em janeiro de 2020 que contou com a participação de especialistas e pesquisadores diretamente relacionados ao tema.

essa carta aberta, além de uma primeira manifestação pública, é um convite para todas instituições e profissionais detentores de acervos de arquitetura e de urbanismo que queiram participar desta iniciativa.


[1] foram digitalizados e disponibilizados documentos relativos às bienais internacionais de arquitetura de são paulo (catálogos, cartazes, fichas técnicas), premiação iabsp, prêmio jovens arquitetos, jornal arquiteto (aproximadamente 1.139 páginas) e boletins/informativos (aproximadamente 2.604 páginas), além de todos os documentos e desenhos técnicos sobre o edifício iab (alguns deles pertencentes ao acervo da fau-usp).

[2] disponível em: https://www.iabsp.org.br/?noticias=acompanhe-ao-vivo-o-seminario-acervos-de-arquitetura-iabsp-itau-cultural